VOCÊ ESTÁ SENDO VOCÊ MESMO?

Por Elaine Trannin

Sabemos que somos fruto de uma cultura e sabemos que toda cultura envolve as dimensões de tempo e espaço.

A dimensão do tempo vai nos influenciar de acordo com a época em que nascemos. Se tivéssemos nascido em outra época, seríamos pessoas muito diferentes, acreditaríamos em coisas diferentes e teríamos outros planos de vida, outras ambições. Na dimensão de espaço, se tivéssemos nascido em outra cidade, outro país, outro continente, também seríamos diferentes do que somos hoje. E mais, se tivéssemos nascido no mesmo lugar, na mesma época, mas em uma família diferente, ainda assim seríamos pessoas diferentes. Logo, se considerarmos que somos fruto dessa cultura e que essa cultura varia ao longo do tempo e do espaço, podemos deduzir que talvez não somos o que achamos que somos, mas na verdade, estamos dessa forma em decorrência desse processo cultural.

“Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram.” Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.

Podemos considerar que criamos um personagem nesse mundo e que esse personagem traz um modelo mental muito bem estruturado e que serve de base para interpretarmos as situações que vivenciamos, para tomar decisões e para nos posicionarmos perante a vida. Sendo assim, podemos analisar essa questão sob duas vertentes. Uma que esse processo cultural foi extremamente importante para a nossa formação como seres adultos, nos fornecendo uma estrutura, uma série de valores, crenças e uma postura perante a vida. Por outro lado, conclui-se também que esse processo deu pouco espaço para manifestarmos nossa individualidade, principalmente nas nossas fases de criança, adolescente e jovem.

E essa pouca liberdade para a individualidade vem, principalmente, do fato de vivermos em um mundo em que o processo de tutoria é o que governa nosso processo de aprendizado desde a primeira infância. Entendemos aqui a tutoria como o processo que coloca alguém em posição de ensinar, de repassar conceitos e alguém na posição de aprender, de ouvir, de assimilar conteúdos. Alguns fatores importantes a serem realçados nesse programa de ensino: primeiro que a comunicação acontece preferencialmente em um sentido único, professor falando e aluno escutando; segundo que se subentende que o professor é quem tem o conhecimento; e terceiro, que não nos ensina a pensar por nós mesmos, a tomar decisões, a nos conhecer de verdade – o foco é exclusivamente nas matérias regulares do currículo escolar. Nesse processo de tutoria, não vemos espaço para que se possa manifestar seus desejos, sua visão de mundo e também não é incentivada a autonomia de cada criança. Dessa forma, vemos uma série de talentos não aproveitados porque simplesmente não damos vozes a esses talentos. Cada ser humano vem com uma série de potenciais prontos a serem explorados, mas para esse potencial virar realmente uma qualidade, um talento, uma vocação, ele precisa ser visto e reconhecido; tal qual uma semente, precisa ser cuidado, precisa ser regado a cada dia para que possa florescer. 

Mas, o que acaba acontecendo é que vamos assumindo uma serie de verdades que nos são passadas e cristalizamos essas crenças como verdades absolutas e universais. A primeira consequência disso é que nos fechamos para outras verdades, para outras realidades, o que acaba sendo um grande desperdício de ser humano. E o pior de tudo, é que muitas vezes entramos em confronto com outras pessoas para defender essas verdades, para defender nossa imagem, para defender nossos valores, para defender nossa reputação. Se pararmos para pensar que cada um tem suas verdades, seus valores, sua história, iremos perceber quanta energia desperdiçamos ao tentar nos defender de um ponto de vista diferente do nosso. Dulce Magalhães nos ensina que “Vivemos dentro dos limites de nosso olhar, de nossa percepção. Cada um de nós modelou uma lente, uma forma de ver a realidade, ou o que a ciência chama de paradigma.” Com essas palavras, Dulce nos alerta que podemos ser muito além do que estamos sendo. Podemos nos abrir para questionar como estamos hoje e ver o que está fazendo sentido, o que resultou de positivo nesse processo de formação e por outro lado, o que está nos limitando, o que está nos mantendo presos em uma realidade que não escolheríamos espontaneamente. A partir dessa auto-percepção, podemos nos lembrar dos nossos sonhos da juventude, dos talentos que potencialmente temos, dos desejos que foram deixados de lado para quando tivéssemos mais tempo, da paixão por uma atividade que virou apenas um hobbie. Que sementes estão, desde sempre, pedindo pra florescer e estamos negando cuidados? Temos autonomia para dirigir nossas vidas, além das amarras e dos limites desse personagem. George Gurdjieff recomenda que deveríamos cuidar conscientemente dessas duas pessoas que habitam em nós: o nosso personagem e o nosso ser verdadeiro, que deve ser ouvido cada vez mais no nosso processo de evolução e amadurecimento.

O fluxo da vida é constante e a todo momento, temos a oportunidade de fazer diferente. Temos a oportunidade de sermos quem viemos ser, quem desejamos ser. Ao final das contas, a pergunta que teremos que responder é: 

Você foi você mesmo?

Te escuto!
Elaine Trannin – Master Coach
coach@elainetrannin.com.br

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