O QUE É A PROFISSÃO DE PSICOTERAPEUTA?

Por Carlos São Paulo

Fazer o outro conhecer a si mesmo é uma tarefa considerada muito nobre na humanidade. É o poder de revelar ao outro as razões do sofrimento da alma (alma é o termo usado pelos junguianos quando se referem a psique e desejam sublinhar um movimento na sua profundidade) e, com isso, cria‐se a possibilidade de existir o abuso de poder. O dramaturgo francês, Corneille, no século XVI, escreveu: “aprende a te conhecer e desce dentro de ti mesmo”. Os antigos alquimistas diziam que ninguém transforma ninguém, mas que ninguém se transforma sozinho; então descer dentro de si mesmo é uma aventura que necessita da ajuda de um mestre experimentado, um analista, o seu analista. Jung conta em sua autobiografia, que a cada 15 dias ia visitar um grande amigo, Théodore Flournoy, pedagogo e humanista suíço em quem tinha grande confiança para lhe expor suas descobertas, suas dificuldades e seus sonhos. Jung parecia saber instintivamente talvez, que o conhecimento de si mesmo se efetua na relação com o outro e os outros.

Quem está buscando se conhecer, muito provavelmente experimenta um sofrimento em sua alma e poucos seguem o que magistralmente Gabriel Garcia Marquez afirmara; “Converte‐te numa pessoa melhor e assegura‐te de saber quem és antes de conhecer mais alguém e esperar que essa pessoa saiba quem és”. Foi a psicose que fez nascer a psicologia analítica de C. G. Jung, enquanto a histeria fez nascer a psicanálise. Foram esses mestres, Freud e Jung que deram a alma o direito de existir para o homem moderno, desenvolvendo essa psicologia que conhecemos hoje; alma essa que até então esteve abandonada a si mesma e fora das considerações ditas científicas.

Em psicologia analítica, os conteúdos da psique que foram negados ou reprimidos criam uma dinâmica chamada de “Projeção” fazendo o indivíduo ver no outro tudo aquilo que foi “evitado” ver em si mesmo. Essa questão leva a necessidade no profissional, atuando como analista, viver a sua própria experiência de análise com outro colega. O profissional, portanto, com as suas emoções, tensões, obsessões, depressões, fantasias, sonhos e ambições, enfrenta a tarefa de lidar com tudo isso em função do outro e aprender a viver uma relação sadia e existencial com esta outra dimensão do Si‐mesmo.

Para se tornar analista não é suficiente, claro, fazer um curso, submeter‐se a uma análise didática ou pessoal e exibir um currículo com tantos anos de análise; precisa ser capaz de adquirir uma relação vital com o Si‐mesmo, e, sobretudo, ser fiel às suas próprias inspirações.

Chamamos em Psicologia Analítica de Si‐mesmo ao centro de toda a personalidade. Jung define assim; “O Si mesmo representa o objetivo do homem inteiro, a saber, a realização de sua totalidade e de sua individualidade, com ou contra sua vontade. A dinâmica desse processo é o instinto, que vigia para que tudo o que pertence a uma vida individual figure ali, exatamente, com ou sem a concordância do sujeito, quer tenha consciência do que acontece, quer não.” O caminho para se chegar ao conhecimento de si mesmo é como alcançar o horizonte, não tem fim, ou seja, nunca se chegará lá. A vocação do psicoterapeuta é, portanto, dedicar a sua vida, seu tempo e sua inteligência, ao trabalho para o conhecimento de si mesmo, para os outros e com os outros.

O cotidiano do psicoterapeuta é muito desafiador e exige demais de si mesmo. O segredo profissional e, sobretudo a privacidade, exige que o terapeuta guarde muitas coisas para si próprio. É uma vocação, uma exigência interior de certas pessoas na vida, uma paixão. Jung nos diz que a função do trabalho terapêutico é a de humanizar o divino e espiritualizar o humano.

O analista e psicoterapeuta tem duas ações a fazer; intervir acrescentando, ou então, como o escultor, retirar o excesso do mármore bruto para dali surgir a criação. Para essa última ação, o seu trabalho com os sonhos, por exemplo, poderá levá‐lo a reconhecer junto ao sonhador, toda expressão criativa acobertada pelo mármore bruto, assim como ao utilizar‐se dos seus conhecimentos filosóficos, antropológicos e sociológicos agirá na ação de acrescentar algo àquela alma pedinte.

É da responsabilidade do analista não se colocar de forma a induzir o seu cliente a tê‐lo como um ser especial e divino; como também reconhecer que o seu trabalho não é um vôo livre, há de ter uma direção. A sua tarefa é como acontece na alquimia; solve e coagula. O jogo de poder também é de sua responsabilidade saber evitar, assim como a mágica, o mistério e a autoridade. Precisa reconhecer quando erra e entender que a psicoterapia não é estar a procura de um “insight”, e sim, dentre muitas tarefas, pensar no lugar do paciente e com a cabeça do paciente para chegar a uma compreensão junto com ele, da sua tarefa de alquimista para solver e coagular.

Os pacientes, muitas vezes, em suas fragilidades, buscam encontrar um ser humano especial que os ajude a viver de acordo com as suas fantasias e os alivie de qualquer sofrimento. No entanto, ao contatarem como por encanto com uma figura perdida no tempo e no espaço, vivem‐na através daquele psicoterapeuta, ou então, buscam a figura humana ideal, cujo modelo é retirado das regiões mais abissais da alma e projetam no analista. Também, os desafios de suas experiências passadas vão se misturando naquela figura do presente que parece reativar experiências prazerosas ou ameaçadoras e, por tudo isso, surge um campo relacional que precisa ser compreendido por analista e analisando.

Muitos indivíduos desesperados, e com suas almas desorganizadas, buscam uma transformação imediata e mágica, ou ainda, experimentam os vários caminhos que prometem soluções sem a necessidade de entrar em contato com a consciência de uma personalidade fragmentada, pois mexer nesses fragmentos incomodam muito. Evitando esse sofrimento, também evitariam, infelizmente, a evolução da alma. No entanto, quando se tem um analista, este pertence necessariamente a uma escola, mas considerando a complexidade da alma humana, nunca haverá uma verdade absoluta. As escolas, na nossa época, são o equivalente às correntes espirituais do passado. Assim, escolher um analista é a questão de se sentir em casa e ter ressonância interior; é o que importa na hora de cada um fazer a sua escolha. As instituições jurídicas em si não têm um valor, valem somente pela qualidade das pessoas que as representam.

O psicoterapeuta por sua vez pode seguir um caminho atrelado aos conhecimentos médicos da farmacologia e neurologia, além da psicologia; enquanto outros se afastam desse saber e se voltam à filosofia, além da psicologia. Inúmeros são os desafios a esse profissional que precisa de muito mais do que o conhecimento da medicina, filosofia, antropologia, sociologia e psicologia. Sua tarefa é também de se sentir capaz de perceber uma unidade funcional com todos os seus fragmentos. Sua consciência adaptativa às exigências externas, tanto do campo familiar quanto do social, não pode deixar de contemplar e se harmonizar às diretrizes de uma natureza que habita seu ser portador de uma sabedoria inata.

É durante o trabalho analítico que o analisando descobre a sua vocação, e assim, sem perceber, a análise pessoal se transforma em análise didática. O analista pode orientá‐lo em suas leituras, para que, de forma gradativa, adquira os conhecimentos necessários para realizar o seu trabalho. Assim, estar em análise e fazer um bom curso de especialização na abordagem analítica são os primeiros passos para a construção de um bom psicoterapeuta.

Vivemos em uma sociedade capitalista e utilitarista, com mecanismos governamentais, regendo através dos conselhos, o comportamento daqueles que visam resolver questões da saúde do homem. Assim, ainda estamos longe de ter encontrado uma maneira adequada para atender aos que não estão vinculados nos conselhos de psicologia ou medicina e se descobrem vocacionados para esse tipo de trabalho. No entanto, aos poucos vão surgindo algumas soluções; a exemplo da Filosofia Clinica, dos Arte terapeutas e os Psicopedagogos, dentre outros.

O senso comum ainda enxerga o profissional psicoterapeuta como necessário para alguns e desnecessário para outros. A necessidade de uma psicoterapia habitualmente é atribuída aos portadores de distúrbios mentais ou àqueles com uma vida cheia de infortúnios. Muitos são os processos psicoterapeuticos moldados para uma sociedade que exige objetividade e exclui a subjetividade, a exemplo dos convênios que exigem saber quantas sessões serão necessárias para resolver as dificuldades do paciente e qual o CID (Código Internacional de Doenças).

A psicoterapia visa resolver questões específicas na vida de um cliente; enquanto que a análise não tem fim e visa um trabalho religioso do ponto de vista junguiano; o “Re‐ligare” que significa ligar‐se ao Si‐mesmo. Esse sagrado, cuja veneração exige um mergulho no inconsciente, facilita ao homem uma verdadeira evolução da alma. Sabemos o quanto o homem, possuidor de um nível de consciência evoluido, tem um comportamento social muito mais Cristão, podendo assim amar o próximo tanto quanto a ele mesmo.

Esperamos contar com uma humanidade fazendo progresso no mundo interior, tanto quanto vem acontecendo no saber científico com todas as descobertas. Héstia, uma deusa da mitologia grega, sempre era representada em seus ritos, pela chama de uma lareira, significando a experiência de uma família harmoniosa. Esse é o convite para que cada homem se volte a essa chama interior e encontre essa paz tão necessária para a experiência mais verdadeira de ser humano. A humanidade precisa de bons analistas, e o homem moderno de viver o Re‐ligare.

A formação de um analista pode contribuir para um bom desenvolvimento ético e a consciência de um percurso, que deverá continuar ao longo de sua vida. A experiência da vida com consciência torna‐se assim a parte mais importante da formação de um analista. Analista é sinônimo de responsabilidade e respeito por si e muito mais pelo outro.

Carlos São Paulo é médico e terapeuta Junguiano. É diretor e fundador do instituto Junguiano da Bahia – carlos@ijba.com.br | www.ijba.com.br

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