O SOFRIMENTO NO TRABALHO

Por Adriana Saba

Há tempos o tema sofrimento no trabalho vem sendo discutido, mas à luz do momento em que vivemos, parece mais atual do que nunca. Nos processos de Coaching, assuntos como a forte pressão por resultados, a avaliação contínua e os abusos cometidos por gestores são queixas recorrentes.

Com o aumento significativo do desemprego, manter o emprego passou a ser visto como uma questão de sobrevivência. Este aspecto do contexto econômico aumenta substancialmente a pressão sobre os trabalhadores, podendo gerar esgotamento, irritabilidade, instabilidade emocional, além de doenças psicossomáticas.

O esforço para se enquadrar a culturas organizacionais que nem sempre estão alinhadas com os próprios valores, a necessidade de se mostrar disponível e manifestar comportamentos de acordo com o que é esperado podem ser uma violência auto imposta por muitos profissionais no Brasil contemporâneo. As consequências físicas, emocionais e profissionais poderão ser sentidas no futuro.

Um aspecto especialmente sensível é o do tempo que o colaborador dedica ao trabalho. Como sair no horário se todos os outros ficam trabalhando? Há uma certa vigilância até entre pares, e muitos gestores ainda consideram a disponibilidade como um indicativo de comprometimento! O fato de “ter que ficar” até mais tarde no trabalho e sentir que não existe muita possibilidade de negociação contribui para o stress, assim como a sensação de não ser o dono da própria agenda. Sem falar nos celulares e mensagens por whatsapp.

Assim, tenho visto, ao longo dos últimos dez anos, um aumento significativo do nível de sofrimento no trabalho. E este é um aspecto que tem interferido na própria forma como consideramos a atividade laboral. Hoje o significado do trabalho para a maioria de nós é ambivalente: ao mesmo tempo em que o encaramos como uma forma de realização, busca de sentido e de significado para a vida, o vemos também como fonte de muita preocupação, insegurança e sofrimento. Para muitos, e em especial os jovens, o mercado de trabalho parece assustador. Participar de processos seletivos também se revela altamente ambivalente: é a forma de ingressar na empresa que se quer, mas acaba por se configurar como uma luta, uma batalha, que envolve a construção de estratégias para as entrevistas e muita ansiedade.

Frente a este contexto, não causa surpresa que tantos profissionais estejam optando por sair de empresas tradicionais, com estruturas hierarquizadas, para ir em busca de startups e empresas mais informais e orgânicas.

Uma pesquisa sobre Estresse e Sofrimento no Trabalho dos Executivos (Mota, Tanure, Neto, 2008), publicado pela Psicologia em Revista, do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, concluiu que “…quase 60% dos executivos acham que as empresas não têm feito nada para minimizar a tensão que eles sofrem.”

Temos aqui um grande desafio para as empresas: considerar o esgotamento, o stress e os cada vez mais frequentes afastamentos por questões emocionais, em especial depressão, como oportunidades de repensar e rever práticas de gestão.

A OMS prevê que, até 2020, a depressão será a maior causa de afastamento do trabalho no mundo. Atualmente, já é o segundo motivo de afastamento no Brasil, só perdendo para as chamadas lesões por esforço repetitivo (LER). Dados do INSS mostram que 48,8% dos trabalhadores afastados por mais de 15 dias do trabalho sofrem com algum transtorno mental, sendo a depressão o mais frequente.

Em paralelo, a ansiedade e a síndrome do pânico também são muito comuns e também podem se misturar com a depressão. Todos estes sintomas estão profundamente relacionados à aceleração dos processos e rotinas através da tecnologia, à exposição a situações de avaliação contínua e à cobrança de metas pouco realistas.

Há muito o que fazer a respeito pelas empresas e pelos gestores, mas as pessoas podem ter no Coaching de Carreira uma possibilidade de dar lugar ao seu sofrimento, se fortalecendo e, assim, podendo construir alternativas factíveis para o seu dia a dia, e de acordo com os seus valores e expectativas.

Além disso, o sofrimento e o assédio põem em cheque a própria percepção e, em consequência, a avaliação da situação que vivem. O profissional frequentemente se sente perdido e sem forças para alterar o estado das coisas. Neste sentido, o processo de Coaching pode funcionar como uma âncora que lhes possibilite construir novas referências.

Adriana Saba
Consultora de Carreira, Coach e Psicoterapeuta
Diretora da Oficina da Mudança, ex-diretora da ABOP (Associação Brasileira de Orientação Profissional).
www.oficinadamudanca.com.br
adrianasaba@oficinadamudanca.com.br

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