O DINHEIRO, A SAÚDE E O SAGRADO

Por Carlos São Paulo

Pesquisas anunciadas na imprensa nacional dão conta de que o brasileiro está consumindo, por conta da crise econômica, mais ansiolíticos e antidepressivos do que os europeus. Que relação então tem o dinheiro com a saúde e o sagrado? É o dinheiro, neste século, uma divindade?

O psicólogo Waldemar Magaldi, em seu livro “Dinheiro, Saúde e Sagrado”, consegue analisar o quanto estes itens estão por trás do adoecer e da infelicidade humana atualmente. O dinheiro, essa fonte inesgotável de energia e de transformações, poderia ser orientado para uma vida saudável. Mas em vez disso fica aprisionado em duas engrenagens que se mantêm sem comunicação uma com a outra e igualmente viciadas. A primeira é maior em número de pessoas: são aquelas que consomem para criar débitos, trabalham para pagar suas dívidas e assim continuar a consumir, num movimento que mais parece um moto perpétuo. A outra engrenagem, com menos componentes humanos, gira em torno de acumular riquezas para manter o seu poder e, para isso, deve lucrar para continuar acumulando e assim perpetuar esse poder que lhe parece garantir sua importância no mundo.

Uma retratação metafórica dessa condição encontra-se na criação de Disney. O Tio Patinhas necessita dos Metralhas. Ambos são fascinados pela riqueza. Vivem planejando fortuna, e a maior parte do tempo vivem presos. Patinhas, em seu cofre forte. Os Metralhas, na cadeia. O Pato Donald, a classe explorada, faz o seu trabalho obstinado e lhe falta criatividade e sorte. Já o Gastão, sem transitar no trabalho e na criatividade, fica com a sorte. Enquanto isso, o Professor Pardal, com o conhecimento e a tecnologia, fica à mercê dos investimentos do Patinhas. A moeda número 1 do Patinhas é o seu talismã, símbolo do sagrado que lhe confere a graça e a sorte.

A humanidade arcaica fazia holocausto a Deus. Ao colocar seu cordeirinho no fogo, a fumaça subia aos céus como alimento para o divino. Essa era a oferta que deixaria Deus alimentado e, ao mesmo tempo, devedor para lhe conceder a graça de manter seu lucro ou perdão de seus pecados. No ato de dar algo a alguém se esconde a intenção de obter alguma coisa em troca. Desde um compromisso de débito do outro, até mesmo o sentir a satisfação desse outro e esperar a sua fidelidade. Da relação de troca, em função do sentimento de dívida que está presente na natureza humana, é que foram surgindo os rituais de doações e sacrifício, a exemplo das oferendas para os Orixás e o dízimo das igrejas.  

O homem moderno deixou de trocar livremente. Hoje é o consumo do supérfluo. O dinheiro é o caminho de “cura” e “salvação”. Empanturra-se de farta comida para encher o vazio existencial ou como diz o autor: vai ao shopping para comprar o que não precisa, com o dinheiro que não tem, com o intuito de impressionar a quem não conhece. Para aqueles que acumulam, o espírito do lucro passou a ser evangelho. E a riqueza material tornou-se a salvação. Juntos, os que consomem e os que acumulam, passaram a honrar a divindade que lhes permite isso: o dinheiro.

Como um deus, o dinheiro parece resolver todas as necessidades. Traz a falsa realização de nossos sonhos, ou a ilusão do poderoso que pensa assim garantir sua importância no mundo e deixá-lo no céu. Tarde quando descobrem que não estão no paraíso, mas no inferno onde todos os desejos são realizados. Isso até ser abarrotado com os sentimentos de insatisfação e de tédio, em busca do preenchimento de um vazio que não tem fim.

O mercado mudou pagamento e formas de oferecer seus produtos. A internet propiciou essa facilidade para, num clique, o consumir passe despercebido e cause um sentimento de satisfação e prazer. Essa busca de preenchimento do vazio, a divindade do dinheiro virtual parece atender a todos os anseios. Parece ser um ato de amor próprio. Mas transforma-se em inferno no dia do confronto com os débitos, ou da inutilidade dessas compras.

O agir sobre o mundo é o nosso mundo exterior; enquanto entender o mundo é o nosso mundo interior. Esse mundo exterior tem avançado muito em recursos. A vida humana se tornou mais longa e a tecnologia vem facilitando o controle e substituindo o trabalho manual pelo meio eletrônico. O excesso de estímulos para as relações horizontais traz a racionalização e a intelectualização. Enquanto isso, o mundo interior, onde acontecem nossos sonhos, deseja se manifestar. Mas quando o faz não é reconhecido em sua linguagem não lógica para a consciência. Essa falta de contato com esse mundo interior cheio de enigmas e encantamentos talvez nos faça substituí-los por tecnologia.

Surgiu o Pokémon – para procurar monstros virtuais. Corre-se atrás de imagens que mais parece o sonhar acordado. E onde ficam os monstros que criamos? Os do Pokémon já estão formatados, mas servem para nos habituar a fugir da realidade? Nos debatemos contra os monstros do mundo exterior, como a crise financeira que estamos vivendo. Mas será que reconhecemos a crise interior cujos monstros que criamos confundimos com os que estão lá fora e, por isso, não sabemos como caçá-los?        

Carlos São Paulo é médico e terapeuta Junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia carlos@ijba.com.br | www.ijba.com.br

1 comentário


  1. Em suma, Dr. Carlos, o homem num automatismo desenfreado em busca do consumismo exacerbado, e super tecnificado
    vem distanciando-se do próprio Criador.

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