ACOMPANHANDO A HISTÓRIA DO COACHING NO BRASIL

 

Por Beatriz Pinheiro 

Quando o Coaching chegou ao Brasil, já veio acompanhado de  diversos e contraditórios conceitos. Os primeiros Coaches tiveram logo a companhia de muitos profissionais que, saídos das empresas em pleno processo de enxugamento por causa da globalização, se apresentavam como Coaches, cada um oferecendo um tipo de consultoria, mas todas nomeadas Coaching.

A primeira vez que se descobriu que havia vários profissionais no Brasil dando Coaching, de vários tipos e até por telefone, foi em março de 2000, numa rápida notícia nos jornais e revistas.

No Arvoredo já estávamos construindo, naquele momento, um e-program (chamado de multimídia na época) de suporte à Formação Arvoredo de Liderança/Coach, lançado em novembro do mesmo ano. Já trabalhávamos com Coaching desde 1992.

Naquele momento, a nomenclatura usada para Consultores/Coaches e para Líderes/Coaches não deixava claras as diferenças entre os dois. Todos eram Coaches, o que promoveu uma confusão que persiste até hoje: em muitas empresas, profissionais internos se julgam aptos a proporcionar Coaching a outros da sua empresa, ignorando os malefícios do envolvimento que permeia esse tipo de ação.

A partir de 2005, trabalhamos a Formação Arvoredo também na FIA (Fundação Instituto de Administração / criada por professores da FEA-USP), para profissionais de várias empresas. Em cada turma, fazíamos um levantamento dos conceitos de Coaching utilizados no ano e encontrávamos uma riqueza criativa absoluta, sem ninguém citar o criador do Coaching, Timothy Gallwey, nem de onde o conceito teria surgido.

A propósito, Coaching tem a ver diretamente com processo de aprendizagem. Muitos diziam, e ainda dizem, que o conceito veio de  um passeio de carruagem, coisa que existiu de fato na Inglaterra, com este nome. A carruagem usada, nesse caso, tinha sido construída na cidade húngara de Kocs e, daí, o nome Coaching.  Pode-se até utilizar, simbolicamente, a imagem do passeio  para a atividade do Coaching, já que aqueles que nele embarcam saem de um ponto específico para um novo lugar, uma nova paisagem, com temperatura e sensações diferentes. Muitas vezes diziam que o Coaching Executivo tinha origem no esporte e, mesmo sabendo que o técnico de um time esportivo é chamado de Coach pelo mundo afora, não foi bem assim que a nossa atividade apareceu.

Timothy Gallwey, o “fundador” do Coaching, era, de fato, um professor de tênis, só que alguém muito especial na profissão, curioso para entender como ensinar efetivamente seus alunos, com espírito pesquisador e altamente perceptivo. Para ampliar sua percepção, Gallwey foi para um ashram indiano, pensando até em se tornar monge, o que não se confirmou mais tarde. Mas o desenvolvimento da percepção foi o ingrediente que possibilitou a Gallwey descobrir tudo que ele descobriu no contato com seus alunos, podendo assim estabelecer o seu método.

A questão da aprendizagem é a origem real do Coaching, coisa que raramente se escuta nos grupos que formam Coaches. E a forma como Gallwey passou a atuar com os alunos, após suas descobertas sobre aprendizagem, colocou a relação professor/aluno no seu devido lugar: o professor não é aquele que sabe e ensina a quem não sabe, mas aquele que descobre como facilitar o caminho das descobertas dos seus alunos. Com a chegada da Internet e o grande desenvolvimento da comunicação, esta premissa ficou provada: hoje os alunos das mais diversas áreas podem colher informações na Internet e, para os professores, fica o papel da reflexão, do desenvolvimento, da pesquisa e dos ajustes científicos.

Ao levar sua metodologia para as organizações, Gallwey, consequentemente, coloca em questão a forma como eram resolvidos os “treinamentos” anteriormente: algo decidido como importante para a empresa e que envolvia a todos indiscriminadamente. Com a chegada do Coaching, muito trabalho individual passou a fazer parte da ação voltada para o desenvolvimento nas organizações. A palavra “desenvolvimento” chegou ao seu devido lugar e foram criadas as áreas de “T e D”, voltando o treinamento às questões práticas e formais.  O desenvolvimento tomou corpo e trabalhos específicos, visando o crescimento dos profissionais, foram criados.

No entanto, a selvageria com relação ao Coaching só foi se expandindo.

Por que selvageria? Como o Coaching apareceu como algo brilhante, atraente e que prometia sucesso e bons resultados financeiros, ele atraiu e continua atraindo olhares de todos os tipos. Muitos nele foram se colando, sem nem mesmo saberem do que se tratava. E, ao longo do tempo, surgem novas correntes e propostas chamadas de Coaching, sem nada terem a ver com essa preciosidade, criada por Gallwey. Isso porque o verdadeiro Coaching é difícil de ser realizado: ele é um processo de desenvolvimento do Coachee, seu senhor e dono e, não, do Coach. O que mais encontramos nas centenas de propostas de Coaching é algo identificado com orientação e aconselhamento, tudo que não é Coaching.

“Nos primeiros anos, falou-se em Executive Coaching /Coaching Administrativo/ Coaching Estratégico, Coaching Gerencial, Personal Coaching  e, aos poucos, foram aparecendo linhas de trabalho em Coaching: Coaching Integrado (ICI), Coaching Integral (PNL, Constelações Sistêmicas, Abordagem Transpessoal, Sistêmica e Integrativa), Coaching Sistêmico (Técnicas avançadas do Pensamento Sistêmico + Foco em Metas), Coaching Integral Sistêmico (baseado num conjunto de práticas e disciplinas e se propõe a mudar todas as áreas da vida), Coaching Ontológico (Ontologia da Linguagem e Experiências de vida), Coaching Ontológico Transformacional, Coaching para o Sucesso, Coaching de Alta Performance, Coaching Antroposófico, Coaching Holístico, Coaching de Carreira, Coaching com foco no desempenho, Coaching de Equipe, Coaching de Projeto, Coaching de Grupo, Coaching Integral (baseado na Filosofia Integral de Ken Wilber), Coaching (Erickson College), Life Coaching/Coaching de Vida, Self Coaching, Coaching Clinic, Coaching de Negócios, NeuroCoaching, Coaching e eneagrama, Coaching para atores, Coaching de tudo e para tudo (saber se vestir, escolher um imóvel, emagrecer, procurar um(a) companheiro(a) e muitas coisas mais)”, como dissemos no 2º Capítulo do livro “Coaching e Formação de Liderança/Coach” no site www.arvoredo.com.br). 

E continuam a surgir muitas possibilidades de Coaching, o Assertivo, o Vocacional, o Afetivo (que enfrenta os problemas de busca do outro, de sexo e outros), o de fazer dormir àqueles que não têm sono, o Coaching Kids ou Kids Coaching, o Coaching infantil. Esse último chama de Coaching uma reflexão sobre alguma coisa que a criança experimentou (chorar em vez de falar, por exemplo, como explica Márcia Belmiro, criadora desta metodologia, num exemplo com a própria sobrinha), isto é, uma conversa descontraída e de bom senso com uma criança.

A certa altura, tentando estruturar toda essa diversidade, alguns passaram a dizer que existe o Coaching de Ser e o Coaching de Ter; o primeiro mais identificado com processos de desenvolvimento e o segundo, para aqueles que gostariam de ter alguma coisa e acham que não vão conseguir  (um carro, uma casa, etc.).

É preciso dizer que esta miscelânea foi também impulsionada por cursos de Formação em Coaching rápidos, equivocados e de pouca profundidade.

Empresas e pessoas que gostariam de buscar o Coaching, digamos original, ficam sem entender onde buscá-lo e se confundem com a quantidade de ofertas que lhes são apresentadas.

É claro que esse processo pode acontecer com várias áreas do Saber, que acabam desvirtuadas pela moda e pela superficialidade cada vez mais forte entre nós.

No caso do Coaching, como o cerne da atividade está diretamente ligado a desenvolvimento pessoal e profissional, ao genuíno processo de aprendizagem e a uma atitude de humildade (terra fértil) daquele que serve de trampolim para o crescimento do outro, o grupo fiel a essas origens é, de fato, pequeno e seleto.

Nesses tempos em que nos encontramos diante de uma vergonhosa marcha a ré no desenvolvimento do nosso País, buscar a excelência para o crescimento das pessoas e dos profissionais brasileiros é um senhor desafio para aqueles que têm, como propósito, fazer a diferença através do trabalho que realizam.

Beatriz Pinheiro

Filósofa, com Maîtrise em Comunicação e Pós-Graduada em Comunicação Não/Verbal (DEA) – Université de Provence – França, Psicodramatista, Especialista em Coordenação de Pequenos Grupos; Coach desde 1992, criadora do e-programCoaching – Posturas Fundamentais de um Líder/Coach” apoio da Formação Arvoredo de Liderança/Coach, Liderança de Excelência, primeira no Brasil (2000); professora/parceira na FIA desde 2005 no curso Coaching (O Líder/Coach); especialista em desenvolvimento de pessoas e grupos no Arvoredo desde 1977.

Autora de: “O Visível do Invisível” (A Comunicação Não/Verbal na Dinâmica de Grupo) Ed. Casa do Psicólogo (2ª Ed 2003), “Arvoredo – Um jeito brasileiro de fazer Educação”  –  Ed. Hedra (2009).  “Coaching e Formação de Liderança/Coach” – com os coautores João Luiz Pasqual e Vivian Broge, escrito diretamente no site www.arvoredo.com.br, 2012/2013)

 

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