A DIFÍCIL ARTE DA SIMPLICIDADE

Eduardo Shinyashiki

Leonardo da Vinci costumava afirmar que “A simplicidade é o último grau da sofisticação.”

O anseio pela simplicidade é algo cada vez mais percebido na sociedade. Perante a um mundo cada vez mais complicado, as pessoas estão reagindo, se posicionando e buscando mais simplicidade para a vida pessoal e profissional. Essa simplicidade é necessária para trilhar com êxito o complexo caminho da vida e, felizmente, parece que essa percepção está começando a se espalhar no mundo e os sinais de mudanças culturais já são evidentes.

Contudo, existe um conceito negativo que às vezes é aplicado à simplicidade: estupidez ou ignorância. Obviamente não devemos confundir simplicidade com simplório, superficialidade, banalidade, desinteresse ou preconceito. Não é disso que estamos falando.

A arte da simplicidade é tão sutil quanto o exercício da nossa inteligência, por isso, exige muita criatividade. Complicar é fácil, simplificar é difícil. É preciso trabalhar bastante para ter ideias claras e que possam ser comunicadas e realizadas, sem complexidades inúteis, mas criando harmonia, unidade, coerência e resultados.

A experiência iluminante e muitas vezes fascinante da síntese criativa, de uma intuição ou da solução de um problema, nos leva a constatar que foi a simplicidade que permitiu aquele resultado. As soluções mais eficazes são quase sempre as mais simples.

Lembrei-me de um conto árabe que exemplifica bem isso:

Mullah Nasruddin colocou mel para esquentar no fogo, quando, inesperadamente, chegou um amigo para visitá-lo. O mel ficou tempo demais no fogo e começou a ferver. Mullah ofereceu um pouco ao amigo em uma xícara. Como estava muito quente, o amigo se queimou. Mullah pegou então um leque e o agitou em cima da panela que ainda estava no fogo, para resfriá-lo.

Existem situações nas quais as pessoas se obstinam a querer “resfriar o mel com um leque e não tiram a panela do fogo e nem apagam o fogo”, e isso é bem o exemplo de como as vezes o ser humano complica e usa sua energia e esforço em ações cansativas e inúteis, que não resolvem o problema.

Às vezes é a nossa maneira complicada e contorcida de raciocinar, pensar e perceber que confunde as coisas, as tornam incompreensíveis e esconde a realidade simples dos fatos atrás de uma cortina de complexidade que nos impede de ver a solução. Pelo fato de nós, seres humanos, sermos a parte ativa na relação com a realidade, temos a responsabilidade de intervir e modifica-la, incluindo mais simplicidade na vida.

Exercitar a simplicidade de pensamento é uma das maneiras mais eficazes de cultivar a nossa inteligência e criatividade. É estimulante e entusiasmante, pois existe uma ligação profunda entre simplicidade e intuição e, depois de ter tido um insight, é muito provável nos sentirmos eufóricos, percebendo em nós aquela emoção do famoso “Eureka” de Archimede.

As empresas e as organizações que, cada dia mais encontram mercados complexos, mais burocracia e contínuas mudanças de direções, também estão olhando com interesse e curiosidade para o princípio da simplicidade, que inclui no seu núcleo a clareza e a dinamicidade nas ações como guia nas decisões.

Cada vez mais os líderes estão utilizando estratégias claras e exercitando a simplicidade na forma de se comunicar e nos comportamentos com seus colaboradores para que a execução das tarefas e as ações se tornem mais simples também.

O líder não precisa confundir as pessoas, mas ao contrario, precisa permitir que todos compreendam qual é o objetivo fundamental da empresa, sem que a direção originária seja esquecida. Sei que não é tarefa fácil, pois não estamos acostumados a ser simples e claros e temos medo de nos expor e de sermos quem e o que realmente somos.

É comum a falsa convicção de que as coisas complexas correspondem à qualidade e que procedimentos complicados são sinônimos e garantia de sucesso. Um líder confiante e seguro dos seus conhecimentos e competências utiliza a simplicidade na sua liderança para levar a equipe na direção de estratégias claras e na escolha das prioridades.

A simplicidade se torna assim a virtude dos grandes profissionais e dos grandes gênios também. Einstein dizia que se você não consegue explicar algo de forma simples, significa que você não o entendeu suficientemente bem. Eu concordo com esse precioso conceito e acredito que a vida oferece muito mais possibilidades para nós encontrarmos a verdade e a realização quando buscamos experimentar a simplicidade.

Foto Perfil_Eduardo Shinyashiki 2016
Eduardo Shinyashiki
é palestrante, consultor organizacional, conferencista nacional e internacional e especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança aplicadas à Administração e Educação. Mestre em neuropsicologia, Eduardo é presidente do Instituto Eduardo Shinyashiki e também escritor e autor de importantes livros como “Transforme seus Sonhos em Vida”, sua publicação mais recente.  www.edushin.com.br.

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