CAMINHO PARA TORNAR-SE HUMANO

Por Robson Santarém

Em tempos de intolerância e incompreensões mútuas, é bom lembrar que o que nos torna humanos é a nossa capacidade de nos relacionarmos e de dialogar. Afinal, o ser humano é um ser relacional e só na convivência ele se humaniza.

No entanto, há um dilaceramento nas relações humanas que se revela nas famílias destruídas, nos grupos que facilmente se desfazem e nos inúmeros problemas existentes nas organizações decorrentes, em grande parte, da incapacidade das pessoas se relacionarem bem.

Importa entender, então, o que é verdadeiramente diá-logo, visto que, muitos pensam estar dialogando quando, na verdade, estão “mono-logando”. 

As raízes gregas da palavra são diá (que significa através de) e logos (o conhecimento, o significado, a palavra). Só há diálogo quando esse conhecimento flui através dos dialogantes. O contrário é o monólogo quando a pessoa fala sem pretender escutar o outro e presa às “próprias verdades” não admite um pensamento diferente do seu; outra forma é a discussão ou debate, quando o principal objetivo é identificar falhas no pensamento do outro e provar que está errado, o que, em geral, pode provocar rupturas. Em ambas as situações, falta a compreensão e o respeito ao outro, condições para a convivência.

O diálogo exige escuta, acolhimento, compreensão, tolerância e respeito ao outro, ainda que haja discordância. É com essa prática – tão exigente -, que possibilita ao indivíduo desenvolver valores essenciais e se humanizar. Como tornar-se humano se não for pela via do diálogo? Como tornarmo-nos humanos se não assumirmos as próprias fragilidades e nos abrirmos ao outro na busca da convivência harmoniosa? Como afirmam Edgar Morin e Adam Kahane, os pontos de vista – ainda que divergentes -, podem ser complementares! 

Isto não significa abrir mão das convicções, mas jamais fazer delas, o muro que separa ou a arma que fere o outro. Por isso, penso que o primeiro diálogo é o interior para escutar a si mesmo e checar se os pensamentos e sentimentos expressos em palavras, gestos e comportamentos estão coerentes com os valores humanos que conduzem o respeito à dignidade humana e ao bem comum. Se não soubermos cultivar esse diálogo silencioso, corremos o risco de praticarmos mais monólogos e discussões em nossos relacionamentos.

Somente o caminho do diálogo nos conduz à humanização, pois exige tratar os outros com o mesmo respeito, compreensão e honradez que gostaríamos de ser tratados. E, ao praticá-lo, perceberemos o quanto nos tornamos humanos de verdade fazendo o outro sentir-se igualmente importante.  É um processo de transformação de si mesmo até podermos afirmar o diálogo como um “jeito de ser” da pessoa.

 Quando a pessoa se fixa em suas opiniões e interpretações dos fatos –  que sempre são relativas e condicionadas à sua história e modelos mentais -, corre-se o risco de ensimesmar-se em suas “próprias verdades” e fechar-se ao outro. Isso revela um egocentrismo que dificulta ou impede a própria humanização. A não aceitação do outro é um passo para a censura, para a exclusão de quem pensa diferente e para o autoritarismo que se manifesta nas relações em casa e nas organizações onde deveria predominar o diálogo, como os espaços de educação, incluindo as igrejas.

Pelos ruídos que há nesses espaços que poderiam ser de harmoniosa convivência, pode-se concluir que o nível de discussão é consideravelmente superior ao de diálogo. Queremos um mundo mais humano, no entanto, estamos pegando o caminho errado.

Aprende-se a dialogar, dialogando. Não julgando o outro e muito menos impondo o próprio ponto de vista, pois, como se sabe, cada ponto de vista é visto de um ponto. Autoconhecimento é essencial. É preciso examinar continuamente os próprios pressupostos e estar disposto para revelá-los ao outro, esforçando-se pela coerência e pela abertura ao outro. É o que promove o crescimento mútuo, o entendimento e, podemos até dizer, a cura das feridas da alma.

Tratando-se de liderança, podemos afirmar que ela só efetivamente acontece através do exercício do diálogo. O líder deve ser uma pessoa de diálogo, ou não será líder.

Examinemo-nos pois. Em qual trilha estamos? O que podemos fazer para nos tornarmos mais humanos? E se o diálogo for o “nosso jeito de ser”, o que mudaria em nossa vida?

Robson Santarém

Consultor em Gestão de Pessoas, Coach, Palestrante, Sócio-Diretor da Anima Consultoria para Evolução Humana. Autor dos livros  MILLENNIALS: O MUNDO É MELHOR ( Qualitymark Editora), PRECISA-SE (de) SER HUMANO – VALORES HUMANOS: EDUCAÇÃO & GESTÃO; AS BEM-AVENTURANÇAS DO LÍDER: A JORNADA DO HERÓI; A PERFEITA ALEGRIA – FRANCISCO DE ASSIS PARA LÍDERES E GESTORES (todos publicados pela Ed. Vozes) e AUTOLIDERANÇA – UMA JORNADA ESPIRITUAL (Ed. Senac Rio) 
https://www.facebook.com/animahconsultoria/

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