APRENDER NÃO É FÁCIL

NEUROCIÊNCIA

Enquanto estamos aqui, eu escrevendo e você lendo esta matéria, nosso cérebro está trabalhando “a mil por hora”, em suas conexões neurológicas, sinápticas e processos neuroquímicos, para fazer associações, evocar conceitos e ideias já aprendidos e guardados nos arquivos da memória, procurando sentido para cada palavra escrita ou lida, relacionando-a com as guardadas no léxico ( nosso vocabulário pessoal), para que, enfim, possa haver compreensão, interpretação, inferência e, finalmente, assimilação que, de toda forma, ainda será seletiva e dependerá de fatores como atenção e motivação enquanto esta tarefa está sendo realizada. Puxa! Quanto trabalho! E isso tudo ocorre em frações de segundos!

Podemos dizer que aprendemos alguma coisa quando, a partir de todo este processo citado acima, que culminará em assimilação, ainda conseguimos fazer uma transferência do que foi assimilado para outras situações, provocando mudança no sistema nervoso e consequentemente no comportamento. Isso é aprender!

As experiências aprendidas mudam nossa forma de perceber o mundo, executar comportamentos, planejar, analisar, pensar, alterando todas as conexões neurais.

Utilizando uma linguagem metafórica, podemos dizer que a aprendizagem funciona como uma orquestra!

Os instrumentos estão ali, disponíveis e reunidos em nosso sistema cerebral, mas para que esta orquestra funcione de forma harmônica eles precisam estar afinados, prontos para tocarem na hora certa e acima de qualquer coisa, devem ser regidos por alguém que tem papel definitivo em uma orquestra: o maestro!

Transportando esta linguagem para a da neurociência, os instrumentos da orquestra seriam as funções cognitivas e motivacionais e o maestro seriam as funções executivas.

Entende-se por cognição, o processo do conhecimento. Assim, as funções cognitivas dispõem de instrumentos operacionais como percepção, discriminação, filtragem, foco, seleção de dados, analogias, dedução, elaboração de estratégias, resposta motora, expressão verbal e não verbal, entre outras.

As funções motivacionais são aquelas ligadas ao sistema límbico, o sistema de recompensas do cérebro, sistema ligado ao prazer e dispõem de instrumentos de gratificação e afetividade.

Por último, como citado, o maestro neurofuncional do cérebro são as funções executivas, presentes no córtex cerebral pré-frontal, que desempenham uma função importantíssima para que ocorra efetivamente o processo da aprendizagem, coordenando e integrando todas as demais funções para que o sistema cerebral não fique desarmônico.

Elas são responsáveis por podermos iniciar, desenvolver e concluirmos qualquer atividade determinada.

As funções executivas envolvem atenção, percepção, memória, raciocínio, planificação, flexibilização, iniciativa, assimilação, decisão, execução.

Ou seja, são elas as responsáveis em grande parte pelo sucesso, ou não, da aprendizagem.

Pesquisas atuais em neurociências apontam que distúrbios específicos de aprendizagem como dislexias, discalculias, déficits de atenção, entre outros, podem ter como parte importante na raiz destes problemas, ou como comorbidade, disfunções executivas. Ou seja, voltando à ilustração utilizada anteriormente, o maestro não está conseguindo desempenhar o seu papel e reger a orquestra com sucesso! Os instrumentos continuam lá, mas não há sintonia entre eles e, portanto, não há música!

Uma vez regente do processo cognitivo, todas as funções ou disfunções executivas têm grande impacto no desenvolvimento infantil e no processo de aprendizagem.

Desta forma, todo fracasso escolar deve ser investigado e diagnosticado corretamente, para que, a partir deste diagnóstico, possa haver uma intervenção específica ao caso e reabilitação das funções executivas quando necessário.

Quando as funções executivas estão eficientes, temos uma orquestra harmônica e uma grande sinfonia… a efetiva aprendizagem!

Carla Daniela P Rodrigues:  Psicopedagoga Clínica | Especialista em Neuropsicologia | Terapeuta Neurofeedback | email: carladaniela_psico@hotmail.com

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