A ASSERTIVIDADE TAMBÉM SE APRENDE

Por Emilia Alves

A assertividade também se aprende e cada vez mais se fala na necessidade de tornar o seu ensino mais abrangente. Todavia, quando ela não começa por ser ensinada no núcleo familiar, nem nas escolas, muitas vezes deparamo-nos nas empresas com cursos de formação on request sobre Assertividade, quando os directores ou chefes de equipa já não sabem o que fazer a um colaborador (geralmente chefia intermédia, pois abaixo disso fica mais barato despedir) ou a uma equipa inteira, em reuniões que se transformam em verdadeiras batalhas verbais.

Como já ninguém usa os velhos dicionários, que ainda ocupam algumas prateleiras das nossas estantes como os menos usados de entre todos os livros, recorri à Wikipedia:

Assertividade é a habilidade social de fazer afirmação dos próprios direitos e expressar pensamentos, sentimentos e crenças de maneira direta, clara, honesta e apropriada ao contexto, de modo a não violar o direito das outras pessoas.

A postura assertiva é uma virtude, pois se mantém no justo meio-termo entre dois extremos inadequados, um por excesso (agressão), outro por falta (submissão). Ser assertivo é dizer “sim” e “não” quando for preciso.

E se dizer sim é fácil, ainda que possa ser desadequado e desonesto, dizer não ainda é culturalmente conotado negativamente em muitos países e em muitas culturas corporativas. Ser assertivo, infelizmente, ainda á uma raridade e precisa-se!

Desde há alguns anos, que se defende e se ensina a sexualidade nas escolas. Porque não começar também a ensinar a assertividade?

Sempre defendi que a educação deveria ser uma tarefa dos pais e o ensino essencialmente dos professores, mas cada vez mais temos pais que se demitem das suas funções de educadores, por razões que não faz sentido abordar agora, relegando esta tarefa para os professores; e estes, por sua vez, cada vez têm menos condições para se ocupar do que devem e do que deveriam… Aliás, creio mesmo que lhes falta formação em assertividade, também!

A assertividade como expressão de liberdade, torna a vida mais fácil a todos os níveis e em todos os grupos de pertença em que estamos inseridos, começando pela família. Todos nós fomos ensinados que “mentir é feio” ou que “mentir é pecado”, penalizando a mentira com castigos, mesmo corporais, em certos casos. O célebre e mal afamado puxão de orelhas, uma palmada no traseiro, uma proibição de ir jogar à bola no final das aulas (hoje quantos pais gostariam que os filhos o fizessem), uma ida ao cinema, no mínimo.

Uma educação de raiz judaico-cristã sempre penalizou a mentira como fonte de todos os males, mas inadvertidamente incitou à omissão. Se mentir é pecado, omitir é sagrado: não é mentir e não arrasta consigo nenhuma penalização, dando ao seu autor a capacidade de passar por entre a chuva e isto mesmo com eventual e muito provável prejuízo para si próprio, em particular nas faixas etárias mais jovens.

A capacidade, velocidade e liberdade com que os jovens utilizam a internet, acedendo a todo o tipo de portais e de websites, sem que os responsáveis pela sua educação tenham um mínimo de controle, é assustadora e aqui estamos no reino da experimentação e da omissão. Ninguém pergunta e ninguém tem necessidade de mentir: omite! Concomitantemente, a invisibilidade e abertura do interlocutor é extremamente apelativa e potencialmente manipuladora, o que ainda mais incentiva à omissão. Não vou dar exemplos, pois infelizmente são sobejamente conhecidos.

E como é que tudo isto se colmata? (Colmata = Resolver)

Não há receitas infalíveis, mas há sempre a possibilidade de, por tentativa e erro, tentar minimizar os danos. Só num espaço de liberdade, onde se pergunta para se ouvir a resposta, e se ouve a resposta, escutando até ao fim, para responder, e fazendo-o sem receio de penalização, se pode evitar a mentira e a omissão.

Para a minha geração, a omissão foi uma escola de sobrevivência face a pais controladores e protectores ou sobre protectores. Tornamos-nos autores de teatro insuperáveis e continuámos, muitas vezes a usar essa técnica profissionalmente, com resultados que todos conhecemos, infelizmente.

Vamos continuar a fazê-lo, ou vamos ensinar os nossos filhos a serem assertivos?

E profissionalmente? Vamos a tempo de fazer algo?

É sempre tempo de fazer algo e geralmente isto implica uma mudança de hábitos e uma aprendizagem. Comecemos por nós próprios, antes de tentar mudar os outros, mas tenhamos a coragem de ajudar as nossa equipas com tudo o que as pode fazer crescer. Se não for possível de outra maneira, venham lá os cursos e workshops de assertividade ou mesmo um processo de coaching para a tal chefia que só poderá ser promovida aprender a ser assertiva.

Recordo com gratidão e um sorriso, um processo de coaching que tinha como principal objectivo, delineado pelo próprio e pela sua chefia direta, a assertividade. Todas as competências estavam em conformidade para uma merecida promoção, mas sem assertividade o resultado ficaria comprometido.

Emilia Alves
Gestão Ramo Coaching – Coach – Consultora – Formadora – Lisboa/Portugal
Linkedin : https://www.linkedin.com/in/emiliaalves/

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